domingo, 6 de julho de 2014

O PRIMEIRO HOMEM A PISAR NO SOLO BRASILEIRO CAMINHOU NO ACRE

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       Renã Leite Pontes*

Habita na natureza humana um justificável sentimento de altivez que inspira o poeta a exultar, com zelo sacerdotal, sua gente e sua “aldeia”. Mas no nosso singularíssimo caso, admirando o fulgor da nossa História, o que fazemos aqui é asseverar o óbvio: que o povo acreano tem motivos sobejos para se orgulhar dos seus ancestrais e dos hercúleos esforços que despenderam para que hoje pudéssemos ser brasileiros. Na tentativa de alimentar o clarão do enunciado, nos serviremos, inicialmente, de pesquisas realizadas por um grupo de antropólogos espanhóis e islandeses, em consórcio com a famosa empresa Code Genetics e publicadas originalmente em 2010, no The Official Journal of the American Association of Physical Anthropologists, a partir de exaustiva investigação e análise de rastros de DNA mitocondrial encontrado nas Américas.


Com fundamento nos citados vestígios, os estudiosos encontraram indícios de que o primeiro homem a pisar no solo brasileiro, por nossas palavras, caminhou incialmente no Acre, há uns 30 mil anos, buscando novas terras e fugindo, possivelmente, das intempéries de uma possível era glacial.  Provavelmente, essa história começou na África, quando o homem africano atravessou o Mar Mediterrâneo e se uniu - por instinto de preservação - ao homem europeu, russo e chinês, em caravana com destino a Sibéria (Ásia) e, a partir do Cabo Dezhnev (ponto extremo oriental do Continente Asiático), em grupo, atravessaram os 85 km do estreito de Béring até chegarem ao Cabo Prince of Wales (ponto extremo ocidental do continente americano, no Alaska, América do Norte). Dali a incursão continuou sua rota buscando novas terras, tomando a direção Sul, rumo a América Central, unindo, no caminho, suas raças e culturas às dos povos anahuac, incas, maias, astecas, toltecas, dentre outros.
Mais além, na trajetória da caravana, provavelmente, quando aquela mescla de povos alcançou a região setentrional da Cordilheira dos Andes, por afinidade cultural e linguística, alguns grupos seguiram em direção ao território do atual Chile; outros rumaram para as terras onde hoje é o Acre, deixando, no caminho, importante vestígio idiomático, médico, arquitetônico e demais traços da sua mescla cultural e genética com as civilizações autóctones - desta vez - da América do Sul. Só então, decorrido um tempo para adaptação e reconhecimento da “Terra dos Grandes Geoglifos”, o Acre, é que a miscigenação descendente daqueles povos alcançou à região central do Brasil e, mais posteriormente, ao extremo Leste do “Florão da América”, na plenitude dos seus 7,367 km de orla marítima.   
Apenas por justiça e referência a exuberância das nossas raízes antropológicas, - longe de querermos diminuir a história dos demais estados brasileiros, nem confeitar nossa torta com a cereja dos outros - apenas ilustramos aqui, mais um contraste que dá grandeza a nossa História; a exemplo, o gaúcho fez a sua famosa Guerra dos Farrapos (1835-1845), movimento que não foi popular, nem de esfarrapados, mas de grandes fazendeiros que queriam diminuir o poder imperial, aumentando a autonomia provincial, pagando menos impostos, principalmente sobre o charque - à época, o produto principal da economia guasca.
Conforme exemplificamos, salta à claridade da História do Brasil o fato de que importantes estados da federação fizeram revoluções visando justos ou injustos interesses locais. Interesses que, de algum modo, colocaram em risco a unidade nacional. O Estado do Acre, não! O caso do Acre é diferente porque os acreanos fizeram quatro anos de revolução para agregar ao Brasil o território que hoje é o Acre (uma área estrangeira e inóspita - cinco vezes o tamanho da Bélgica), enfrentando e afrontando, no devido tempo - com armas em punho - o isolamento, a fome, a Bolívia, o Peru e ao próprio Brasil. Isso porque em julho de 1899, o Brasil interveio no conflito do primeiro período da Revolução Acreana e, além de não apoiar os revolucionários acreanos sequiosos pelo status de brasilidade, ainda reconheceu a região do Acre como território boliviano, enviando tropas brasileiras para dissolver aquela etapa da Revolução, inclusive prendendo e deportando a Luiz Gálvez Rodríguez de Arias - líder maior daquela fase da revolução e da República Independente do Acre. Tamanha foi a decepção que o Imperador se entregou pacificamente, sem armas, porque não queria guerrear contra brasileiros.
Conforme vimos, por sua Antropologia e legado histórico valente, o Acre é uma terra valorosa. O acreano que aqui ficou é, acima de tudo, um bravo sobrevivente. Por isso, este artigo enaltece o Acre e sua gente que, apesar dos tropeços de ontem e os de hoje não recua e não cai, avançando, cotidianamente, sem temor, na peleja pela sobrevivência, nestas terras esplêndidas que, parafraseando Galeano, poderia dar a todos, o que a quase todos nega.



* Renã Leite Pontes - Psicopedagogo, Escritor e Poeta; Membro Vitalício da International Writers end Artists Association – IWA, Toledo, Ohio, USA; Membro Honorário do Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais – IMBRASCI, RJ; Membro Fundador da Academia dos Poetas Acreanos; Professor de Educação Física, no Acre.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

SUA ALTEZA, O PROFESSOR


 Por Renã Leite Pontes*
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Algumas décadas atrás, a palavra “professor” era um tratamento de distinção, quase uma honraria. Exercer o ofício de ensinar garantia status e respeito da comunidade. É provável que a sociedade da época entendesse melhor do que hoje o papel dos educadores como construtores do futuro. Há muito que os professores brasileiros, porém, não contam nem sequer com uma pálida sombra do prestígio e do valor social que lhes foi atribuído no passado – ainda que a atualidade costume ser chamada de “era do conhecimento”.

Sabemos que o mundo mudou desde a queda do muro de Berlim, quando mudanças profundas ocorreram na ordem econômica, ambiental, política, social e cultural da humanidade. Essas mudanças influenciaram, significativamente, a dinâmica das relações interpessoais, intergrupais e de trabalho das pessoas, em todos os continentes.
Ademais, com o advento da globalização, a popularidade da internet e das redes sociais, a distância entre as pessoas, os países e os continentes diminuiu do ponto de vista da comunicação. Uma mensagem simultânea de e-mail, por exemplo, viaja do Brasil aos recantos do mundo que ficou uma aldeia, fenômeno que surpreende nossos progenitores, que guardam na memória o correio de selos, a única opção de correspondência à longa distância de outrora.
Todavia, as profissões e os ofícios não evoluíram à proporção exigida por este século XXI. Enquanto máquinas substituem seres humanos, jovens e adultos ficam sem trabalho, num alto índice de desemprego que atinge as sociedades em todo o mundo. Aqui no Brasil ele adentrou nas nossas fronteiras, encontrando o terreno da espoliação previamente preparado pela ala antinacionalista do Congresso Nacional - que pouco se importa com os consecutivos prejuízos brasileiros decorrentes da não reciprocidade nas concessões e negociações internacionais.
Navegantes deste novo oceano de necessidades básicas, a juventude estudantil brasileira, aporta suas esperanças nas lições do professor – um labor de aparente e enganadora neutralidade política, porque - em muitos casos - o profissional do magistério representa para alunos de núcleos familiares desajustados a única oportunidade de convivência em um ambiente permeado pela Ética, Dialógica e inteligência. Principalmente pelas razões elencadas, o labor do profissional responsável pela formação de todos os demais, sobrevive do modo como era realizado no tempo dos nossos pais e avós, talvez porque o estado não tenha interesse em aparelhar os professores para pautarem suas aulas acorde às novas tendências pedagógicas que balizam a educação moderna, ou quem sabe, porque o magistério trabalha doente das mazelas que acometem a categoria quando chega à pós-formação, a saber: a injustiça dos contratos temporários e o perigo da terceirização do trabalho docente surgido com o advento do compartilhamento das tele-aulas ministradas por “professores supergênios”.
Revestido de grande responsabilidade moral, desempenhando-se mal ou bem em uma profissão que, de maneira nenhuma, recomendaria aos  filhos, o professor de hoje convive, cotidianamente, com a frustração de não ter retorno garantido do seu labor pedagógico e demais esforços despendidos para a sua formação. É possível que a desvalorização financeira (acompanhada da alta dos preços) seja o principal problema que aflige o magistério nacional, seguido, muito de perto, das reclamações no campo das relações interpessoais, entenda-se: reprodução do desrespeito para com os mestres (e até violência) por parte dos componentes da comunidade escolar, principalmente alunos e até vizinhos da escola.
Olhando por outro prisma, tendo-se a possibilidade de compreender nossa problemática educacional pela lógica do alunado, entenderemos os motivos que levaram a juventude escolar de hoje ao traço psicológico que chamamos de perda da docilidade, que são: o medo do não ingresso na universidade; muita informação em um arcabouço moral confuso; testemunho do mau exemplo dos poderes constituídos, em todas as esferas; e, por fim, a baixa-estima ocasionada, também, pelo medo (futuro – um sofrimento por antecipação) de não conseguir inserção e adaptação no mercado lucrativo, uma vez que - os alunos sabem - os postos de trabalho mais importantes da sociedade são, em prevalecendo a meritocracia, ocupados por adultos que, outrora, foram alunos brilhantes.
Parece que a esta altura da precariedade educacional brasileira, definitivamente não é importante buscar culpados nos degraus mais baixos da escada porque, nas últimas décadas, revezaram-se no mando brasileiro diversas pessoas “idealistas”. Todas elas subiram ao poder prometendo tempestades de educação no Brasil. E o que se avista na prática é o Brasil seguir se comportando de forma infiel às reais necessidades dos brasileiros. Não deu um passo além do simples discurso futurista que pede aos trabalhadores mais um pouco de paciência porque a criatividade brasileira nos ajudará beatificando o costume antiético de botar chumbo nos ombros dos outros. Seu melhor argumento (notadamente pleonástico e tautológico) para explicar a desvalorização do professor, esclarece  que a remuneração digna do professor - enquanto primeiro passo para alavancar a educação nacional - é assunto simplesmente complexo, uma vez que valorizar, com bons salários, os profissionais do magistério, representaria impacto significativo nas “folhas de pagamentos”, porque o Brasil é pobre, ou que o trabalho do professor é um tipo de riqueza complicada para dar retorno em cinquenta anos, algo  assim como um pré-sal, algo profundo, um produto difícil de extrair.
Alheio a tudo isso, no Japão, Sua Alteza, o Imperador, dispensa o professor de reverenciá-lo, como única exceção entre as demais profissões. E o Brasil, o que vai fazer com os professores? Rebaixá-los ao patamar ínfimo de uma profissão que forma todas as outras, exigindo o sangue e a alma sem pagar-lhe dignamente? Todas as profissões têm sua importância, mas a atividade do professor é estratégica para o futuro e deveria receber mais atenção.  Por isso este texto reverencia o professor, Sua Alteza.

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Renã Leite Pontes – Escritor e poeta; Membro Vitalício da International Writers end Artists Association - IWA, Toledo, Ohio, USA; Membro Honorário do Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais - IMBRASCI, RJ; Membro Fundador da Academia dos Poetas Acreanos; Professor de Educação Física, no Acre.


IMPLICAÇÕES DO ENVELHECIMENTO E SEDENTARISMO NO FUNCIONAMENTO DA COLUNA VERTEBRAL


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Por Renã Leite Pontes*  

Não faz muito tempo que nas comunidades as pessoas caminhavam para ir trabalhar, a maioria das atividades no trabalho - e até no lazer - estavam, de alguma maneira, relacionadas ao esforço físico. Com a popularização do automóvel, do telefone e da tecnologia no trabalho, o uso do corpo nas atividades humanas foi suprimido de tal maneira que, nos dias atuais, até as crianças tiveram sua participação reduzida no universo dos jogos lúdicos e brincadeiras populares, para dedicarem-se a outras atividades, principalmente àquelas relacionadas à preparação para as futuras exigências do mercado de trabalho.
No mundo atual, o dever de buscar os meios adequados para se obter saúde e qualidade de vida foi sendo transferido, gradativamente, do estado ao cidadão. Em meio a este verdadeiro “mexa-se quem puder”, tornamo-nos vítimas das limitações espaciais urbanas e do sedentarismo. Este último, um mal silencioso (agravável pelo fator idade), que desencadeia em todos os sistemas e funções do organismo as doenças chamadas ‘hipocinéticas’, sendo a doença da coluna vertebral e costas a líder absoluta do ranking das causas de afastamento do trabalho, perfazendo, de acordo com dados do Ministério da Previdência Social, um total de quase 180 mil licenças anuais.

Geralmente, as queixas dolorosas da coluna mais relacionadas à atrofia muscular por inatividade, respondem positivamente a um programa racional de exercícios físicos indicados por profissional, principalmente, quando o praticante consegue aderir a novos hábitos posturais e alimentares e insere na sua rotina de exercícios, um programa de fortalecimento muscular específico, associado ao alongamento.
Realmente, é na sua versão preventiva, que a atividade física orientada converte-se em importante fator de proteção da coluna vertebral, uma vez que fortalece os músculos oblíquos e reto do abdômen, a musculatura paravertebral, dorsal e os músculos que compõem o assoalho pélvico - esses últimos, estruturas importantíssimas para a proteção da coluna e dos discos intervertebrais. É precisamente no disco intervertebral que ocorre a protusão discal e a hérnia de disco, mais comumente na região lombar.
Destaque-se, ainda que, embora nem todas as vértebras sejam separadas por disco, na região lombar, cada vértebra possui, o seu respectivo disco intervertebral - estrutura constituída de um núcleo pulposo e um anel fibroso.  Fazendo analogia a um ovo frito, o núcleo pulposo seria a gema do ovo (região central) e a clara do ovo, (a região periférica) que retém o núcleo pulposo, seria o anel fibroso.   
Quando um quadro doloroso é desencadeado a partir da realização de movimentos simples, como por exemplo, se vergar para frente, espirrar, agachar-se, caminhar ou permanecer sentado por algum tempo, em tese, o espasmo doloroso indica um histórico de lesão em algum ponto do sistema mio-ósteo-tendino-ligamentar-articular. Em havendo investigação médica, se o exame específico (ressonância magnética ou tomografia computadorizada) solicitado pelo ortopedista ou neurologista constatar que a “clara do ovo” (anel fibroso externo) sofreu fissura ou deformação, por não conseguir reter ou suportar o núcleo pulposo, algo semelhante a uma deformação ou “bucho” de pneu, neste caso, estará constatada - com maior ou menor gravidade - a protusão discal.
A protusão discal é um quadro geralmente doloroso porque a região periférica do anel fibroso é inervada pelos ramos dos nervos sinovertebral e vertebral, justamente para deflagrar um sinal do perigo (dor) de agravamento que acompanha a protusão discal, se não houver tratamento adequado com repouso da articulação.
Já a hérnia de disco é um quadro clínico mais grave - desencadeado, na maioria dos casos, por uma protusão prévia - porque envolve a ruptura total do anel fibroso (clara do ovo) com expulsão ou extrusão do núcleo pulposo do disco envolvido. Alguns profissionais médicos denominam esses casos mais graves de “hérnia de disco com segmento extruso”.
Mas, independentemente de terminologias, a hérnia discal extrusa é um estágio mais avançado e infeliz de degeneração da coluna vertebral, porque compromete outras estruturas nervosas, causa estreitamento do canal medular (estenose), deflagrando um quadro de espasmo muscular dolorosíssimo e incapacitante, podendo - nos casos mais graves - comprometer ou impossibilitar a postura bípede e a marcha, inclusive, assumir uma natureza gravíssima, se desencadear a “síndrome da cauda equina” - uma emergência médica caracterizada pelos sintomas de dor aguda na coluna lombar acompanhada de incontinência urinária, fecal e sentimento de anestesia na área interna das coxas.
É importante ressaltar que outras patologias podem provocar sintomas parecidos com os da hérnia de disco: cálculos renais, tumores e suas metástases, problemas vasculares, osteoporose, aneurismas, entre outras. Por isso, é importante procurar socorro médico especializado para a realização de um exame clínico detalhado até chegar-se a um diagnóstico preciso. Na larga maioria dos casos o tratamento é relativamente simples: repouso, analgésicos e anti-inflamatórios costumam ser eficazes na reversão de quadros incipientes, até o paciente ser encaminhado à fisioterapia para recuperar a funcionalidade dos movimentos corporais e eliminar a dor.
Se houver outra indicação, visando o bem-estar do paciente, o profissional médico
poderá fazer uso de um amplo espectro de recursos como a rizotomia química (infiltração de corticoide na coluna), cirurgia minimamente invasiva e, se a gravidade do caso exigir, indicar a artrodese (cirurgia com fixação de parafusos).
O hábito de realizar atividades físicas e cuidar da coluna deve ser estimulado na vida das pessoas, pois a coluna vertebral por ser um eixo que se conecta com as estruturas ósseas e articulares dos membros, necessita da perfeita sintonia com seus ligamentos e músculos para realizar movimentos amplos e sem dor. Ter uma vida saudável depende muito da saúde da coluna vertebral. Nunca é tarde para ter mais qualidade e bem-estar na vida, portanto, mexa-se!
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Renã Leite Pontes – Escritor e poeta; Membro Vitalício da International Writers end Artists Association - IWA, Toledo, Ohio, USA; Membro Honorário do Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais - IMBRASCI, RJ; Membro Fundador da Academia dos Poetas Acreanos; Professor de Educação Física, no Acre.





segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

NOVELA RENÃ – CAP. XIV


NOVELA RENÃ –CAP. XIV



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O jantar transcorria alegremente com a presença de importantes artistas locais. O próprio governador do Rio de janeiro estava presente com a família, acompanhado de  alguns secretários de estado, posto que o Dr. Farias– na mais recente eleição -  fora seu maior colaborador em matéria de “doação de campanha”.

Todos comiam e bebiam no restaurante do Navio Soberano II, da Fábrica de Sardinhas, quando o anfitrião pôs-se em pé e pediu a palavra:

- Bem, senhor Governador e distinta família, amigos, meus gerentes, autoridades em geral, demais convidados. O objetivo deste “almoço isento de formalidades” e importantíssimo para a gestão das nossas empresas,  o motivo pelo qual lhes chamei aqui é para comunicar-lhes o meu afastamento imediato da linha de frente da gerência das minhas empresas na América do Norte, no Brasil e na Europa, desde o Porto espanhol de Sanlúcar de Barrameda até a Bahia de Guanabara , no Brasil....  e dizer-lhes que meu assessor especial, o senhor Armando César, será meu substituto de hoje em diante. 

Reinava o silêncio. A voz do anfitrião em chefe encheu o ambiente da luxuosa embarcação:

- César, levante-se para que os presentes possam  conhecer o  novo diretor!

O empregado obedeceu e levantou-se, afastando a cadeira de si, sem contudo empurrá-la e permaneceu em pé, em silêncio.

- Ao nosso novo diretor eu dedico este jantar – continuou o chefe.

Sheila – a moça do incidente no Meridien Hotel, engoliu à seco.

- A contar desta data – continuou o Dr. Farias -  não mais comparecerei aos meus escritórios pessoais. Qualquer assunto que queiram tratar comigo, o interessado deverá reportar-se ao meu secretário pessoal. As atribuições de nomear e demitir, de agora em diante, também, repousarão sobre os ombros dele. Gostaria que vocês colaborassem com ele assim como sempre colaboraram comigo para a saúde do nosso grupo empresarial.

Os presentes permaneceram em silêncio, enquanto Sheila alternava não conseguia parar de olhar para Armando. Mais uma vez, a presença daquele rapaz e as circunstâncias lhe causava incômodo. Que relação teria este evento com aquele acontecido no Meridien? - refletia a moça.

- Uma salva de palmas para o meu novo assessor – exclamou o anfitrião.

À fala do chefe, soou uma saraivada de encontros de mãos. Terminadas as palmas, o novo chefe fez pronunciar algumas simples e poucas palavras:

- Farei o que estiver ao meu alcance para servir-lhes e não decepcionar ninguém. Obrigado a todos, obrigado Dr. Farias  pela confiança. E olhando fixamente para Sheila – acomodada entre seus pais – finalizou:

- Estou muito feliz com a sua presença, senhorita. Ato seguido, sentou-se.

Ninguém sabe por conta de quem, depois da animação do vinho, o pai de Sheila, Dr. Roberto Baldoqui, começou a contar piada. A esta altura, após o prato principal, os convidados já estavam bem servidos da melhor comida e igualmente animados, a custa do vinho. Foi aí que a Profa. Baldoqui, escritora e historiadora,  resolveu abordar o assunto das profecias Maias, do Apocalipse e do fim do Mundo. Pesquisadora e conhecedora do assunto, comentou a respeito da profecia maia que vaticina o fim do Mundo para o período de vinte e um a vinte e quatro de abril de dois mil e dezesseis.

- Esta é a interpretação que encontra maior abrigo pela maioria dos teóricos – concluiu a mulher.

Intencionando quebrar o peso do “clima” da troca de chefias e querendo “entrosar”  o novo chefe com seus subordinados, o Dr. Farias  dirige-se a ao novo gerente geral, que até o momento apenas ouvia atentamente as falas dos presentes:

- E o nosso novo chefe, não tem medo do fim do mundo, sendo ainda jovem?

- Não senhor, ao contrário, o comentário da senhora, o que fez, foi recordar-me de uma piada ocorrida há tempo, em uma vila portuguesa, envolvendo uma senhorita e um cidadão  na boa idade.

- O senhor teria a bondade de nos contar a tal piada? – solicitou uma das damas presentes.

- Claro, com prazer – respondeu educadamente César Armando, já iniciando a história.

- Bem, ocorreu que com a gripe do porco, houve uma vila no interior de Portugal, conforme já falei, onde começou a morrer tudo que era de velhinho. Havia por  lá uma certa enfermeira viúva que cuidava dos doentes. Um dia apareceu no hospital da aldeia um velhinho gripado, desse que se tem de moer batatas para ele engolir.

O homem possuía dinheiro no banco, muitas propriedades, bens e haveres, contudo era sozinho no mundo. Acostumado ao conforto, o velhote requisitou a citada enfermeira que lhe atendesse no domicílio de uma elegante mansão, sob pródiga compensação financeira. No interior da mansão do ancião, ao ver a mobília, os carros, as obras de arte valiosas, a fina prataria... Partindo do pressuposto de que o cristão não tinha por vivo, parente ou aderente, um plano malvado começou a engendrar-se na cabeça da enfermeira...

À noite, em casa, durante o jantar, a profissional de saúde questiona a única filha:

- Filha, você não pensa em fazer seu futuro, já que seu pai não nos deixou herdade para suprir nossas necessidades futuras? Porque – na vida de uma pessoa - o cavalo selado só passa uma vez!

Dado o preâmbulo, a moça correspondeu com singular interesse, querendo inteirar-se do assunto, porque também era igualmente cobiçosa.

- Então, filha, há um velhinho na aldeia, que atendo em domicílio, rico rico e viúvo, sem filhos ou parentes. Está morre e não morre. Por que você não casa com ele para herdar-lhe os haveres? Um velhinho daquele é facílimo de conquistar por uma moça bonita como você. O coitado, acho que já não consegue sequer pensar em sexo. Vai ser um casamento só de paciência,  aparências e lucro para nós duas. A questão é casar e esperar o velhinho morrer com paciência porque – onde estará um velhinho daquele daqui a cinco anos?

A moça assentiu e deslancharam o plano.

No outro dia, durante a visita de rotina domiciliar, a enfermeira mostrou-se demasiado simpática e convidou o paciente para “cenar” em sua casa. O homem ponderou um pouco por causa – segundo o próprio - da dificuldade que tinha de locomover-se, mas depois animou-se e concordou cabalmente.

- Como não, como não minha senhora!

Durante o jantar, a moça da casa começou a dar mostras de cuidados e simpatia para com o velhote.

- Segundo a mãe, a moça era do tipo que dizia que gostava de homem maduro -

Durante o almoço, a senhorita afagava, sorria e servia o prato do convidado. A anfitriã, quando percebeu que o homem estava mais “vidrado” na moça que na “sopinha”, resolveu desembaralhar o plano:

- Minha filha! Você parece que não sei, que está demonstrando muito interesse pelo meu amigo. E “a” e “mais” e “mas o que está acontecendo”?

- Sabe, mãe – respondeu a moça, meio trêmula e com ares de timidez – desde que este simpático cavalheiro entrou na nossa casa, meu coração disparou. Estava aqui parada e uma voz me falou baixinho na minha consciência que este nobre senhor é a minha alma gêmea separada e perdida de mim desde que pecamos e Deus nos expulsou do Éden.

- ato seguido a moça caiu em triste e copioso pranto com lágrimas de crocodilo -

Ante a inusitada ideia, o velho foi se animando, foi se agradando da moça, de modo tal, que foi se inchando tanto que o episódio até lembrava aquela famosa historia espanhola, o caso da  “Fábula da Rana Rupta”.

A mentora do malíssimo plano pecuniário, reconhecendo a firmeza do terreno, prosseguiu com o estratagema:

- E o senhor, que achou da minha joia rara?

- É um tesouro! É cheirosa! Acho que daria uma excelente esposa porque é atenciosa, sensível e bonita por demais!

- Então, por que o senhor não casa com a minha menina para alegrar os seus dias? Eu tenho esta única filha, moça excelente, e tenho medo de morrer e deixá-la desamparada. Ai! A mulher começou a chorar, numa encenação surda, capaz de arrebatar a estátua do “Oscar” das mãos da atriz norte-americana Marlee Matlin.

- Como não, como não! – respondeu afirmativamente o homem.

E deu-se o casamento. Na noite de núpcias, a esposa sofreu amarguras nas mãos, quer dizer n... do ancião. O casal já se amava havia pouco mais de três horas... até que o homem deu por encerrado o ato.

Quando o ancião soltou a jovem, a mulher questionou:

- homem, mas que coisa!

Entendendo que a esposa havia reclamado do fraco desempenho o cidadão respondeu - Desculpe mulher, - mas ocorre que hoje não me sinto bem disposto, porque tive um dia cheio e você também.

A recém-casada tremeu-se toda.

César Armando calou-se fazendo uma pausa para o "drink", já que os presentes riam descontroladamente.

 Muito bem, vamos parar de rir e continuar com a  história - reclamou um cavalheiro

Sim, claro – exclamou Armando continuando a história:

- Bem, ocorre que o matrimônio deu vida nova e energia ao noivo. No outro dia os “pombinhos” viajaram em lua de mel para a cidade de Angra dos Reis, no Brasil.

Sob o sol de Angra, muito animados em um agradável resort, desta vez a relação dos nubentes já ia para mais de quatro horas, quando a esposa alarmada, gritou:

- Socorro, descansa homem, para marido, me matas, me matas...

Ainda um pouco insatisfeito, o homem largou a mulher e foi para a varanda. Transcorrido um pequeno espaço de tempo, a mulher escuta um barulho:

Tum, tum, tum, tum...

Assustada, pensando que eram ladrões, a mulher põe-se de espia e - finalmente - vê o marido batendo com o osso da canela na borda de cimento de um vaso de planta ornamental. A pobrezinha pergunta:

- Mas, homem, para que isto?

É quando, então, o marido responde:

- É para acalmar o feldspato!

- E que diabos é feldspato, marido, oras? – pergunta a esposa angustiada

É o nome do meu... - responde o homem “subindo pelas paredes”.

- Isto eu sei – retrucou a esposa -  queria era saber o que significa a palavra feldspato.

- Feldspato, respondeu, por fim, o homem - é o nome da rocha utilizada na construção das pirâmides do Egito...

Neste instante, os ocupantes da mesa desataram em riso: o óculos de um oficial médico, com oito  graus de miopia, espatifou-se no piso. O comandante da embarcação deu com a mão na beira do próprio prato e ficou coberto de mariscos. A esposa do gerente da Fábrica de sardinha da Região dos Lagos, ficou com o rosto em brasa, porque engasgou-se com a bebida e engoliu uma pedra de gelo.

Passado o riso, Dr. Farias fez uso de um branquíssimo guardanapo de algodão para refazer sua toalete e as mulheres puxaram seus espelhos para retocar a maquiagem. Voltou o silêncio acompanhado do  constrangimento geral.

Depois do silêncio, foi Sheila que se recompôs e tomou a palavra para “quebrar o gelo” e alimentar a conversa:

- Mas, senhor César, após ouvir a sua maravilhosa narrativa, não percebi a relação existente entre a mesma e o assunto que a motivou: o fim do mundo.

- César continuou impassível:

- Bem, senhorita. É que dei uma pausa para os risos... E continuou:

Por aquelas alturas dos acontecimentos inesperados e infindáveis, a coitadinha da mulher já havia compreendido que estava condenada a morrer antes do marido e ficou “maquinando” mil maneiras de se livrar do marido:

- De matá-lo não tinha coragem, porque não matava nem formigas; esperar pela morte dele? Haja vista a vitalidade demonstrada, sabia que ia morrer antes dele. ai meu Deus. Foi justo aí que a mulher lembrou-se do fim do Mundo, o Apocalipse e as profecias maias. Crendo seguramente que o marido só iria morrer quando o mundo acabasse, a pobre ficou fazendo as contas e, por fim, dirigiu-se ao próprio objeto da sua aflição:

- Marido! Você já ouviu falar nas profecias maias, que o mundo vai acabar em dois mil e dezesseis?

O homem, aos costumes, respondeu:

- Como não mulher, como não!

- Marido! – nesta hora a mulher falou tremendo porque lembrou-se de sua querida mãezinha -

- Hum!!!

- Se o Mundo se acabar mesmo em dois mil e dezesseis, de tudo o que há no mundo, o que você acha que poderá resistir ao fogo do Apocalipse?

- O homem pensou um pouco e, então, com um ar de solenidade, respondeu firmemente:

- Mulher, se o mundo se acabar com fogo em dois mil e dezesseis, o fogo acabará com todas as coisas da terra. Quando o fogo do apocalipse se apagar, a única coisa que poderá resistir será o feldspato.

Novamente, os ocupantes da mesa desataram em riso convulsivo. Uma senhora distinta, que até agora tinha se mostrado uma espécie exemplar em matéria de comportamento, se engasgou com um marisco, vertendo na sala o conteúdo da boca; um alto funcionário do Consulado Geral da Espanha no Rio de Janeiro, afastou abruptamente a cadeira da mesa de refeições, enquanto assumia a posição fetal, abraçando o ventre entre cólicas de riso; um renomado jurisconsulto carioca, homem de excepcional autoridade conceitual em matéria de Direito Criminal,- na tentativa de recobrar as maneiras,- empurrou a esposa, rasgando-lhe o  vestido longo de um ombro só, de chifon  e seda,  bordado com pedrarias e fios de ouro Marlene Blangê:

- Perdão, querida! Perdão!

- Já chega, homem! Nos mata! Nos mata! – exclamou o anfitrião – vamos chamar os serviçais e depois a orquestra. Quero que todos dancem, quero que todos saiam daqui contentes.

Às palavras do chefe, César Armando permanecia sentado e imperturbável.

- Dr. Farias olhava o empregado cheio de admiração e orgulho, crendo que o mesmo havia deixado uma boa impressão de pessoa culta, trabalhadora e progressista, frente aos presentes.

- Ele é assim mesmo, imperturbável como uma montanha, falava em tom de orgulho, como se falasse de um filho.

Rapidamente os empregados da sala retiraram a grande mesa, limparam tudo... foram dispostas, então, outras mesas menores, na proporção do número de convidados. Ato seguido, preparada e acomodada a orquestra,

Soou a música.


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